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Trabalho, Estado e Violência de gênero: Desigualdades estruturais e econômicas

No Rio Grande do Sul, desde 2025 há um grande debate sobre o aumento de feminicídio no Estado e, como forma de mitigar (ou pelo menos tentar) esse fato, seja por veiculação de mídias e campanhas em territórios com um maior indicador de agressões, o governo do Estado criou, em meados de Junho de 2025, a Secretaria da Mulher. Mas, neste post, quero ir além do gênero feminino. Quero conseguir olhar para a comunidade LGBTQIA+ e, claro, racializar T-U-D-O (quando possível) e trazer a perspectiva de crimes e renda do trabalho.


Vamos lá?

A primeira base de dados que será utilizada é a publicação mensal do Artigo 3º da Lei nº 15.610/2021. Essa base traz consigo números absolutos de temporalidade diária de vários tipos de enquadramento de crimes praticados no Estado. Lembrando que temos dados divulgados desde o segundo semestre de 2021, mas aqui vou trabalhar com os dados do ano de 2024, visto que são dados diários de todos os municípios do Rio Grande do Sul, enquanto os dados do ano de 2025 ainda não estão completos e divulgados.


Se você não viu o meu primeiro post da trilha Trabalho, Estado e Violência de Gênero com a perspectiva de onde encontrar dados públicos e como baixá-los, clique aqui. 

Falando sobre crimes,

O que são os tipos de enquadramento?

Os tipos de enquadramento são os mais diversos. Temos crimes contra a pessoa, patrimônio, administração pública, crimes contra a fé pública, crimes sexuais e contra a dignidade sexual, crimes contra idoso, criança, adolescente e pessoa com deficiência, crimes de trânsito, crimes ambientais e contra animais e vários outros. Ao todo foram 291 tipos de crimes praticados em 2024, mas o que chama atenção é que crimes contra a pessoa (ameaça, lesão, injúria e outros) dominam o volume de casos, enquanto crimes mais graves (como homicídios) têm números bem menores.


Fer, quer dizer que não tem tantas mortes no Estado?

Não é exatamente isso, mas o crime penal com maior número absoluto no Rio Grande do Sul no ano de 2024 foi a A-M-E-A-Ç-A com 106.563 registros. Para te dar um top 5 rápido e contextualizar, veja abaixo os números absolutos dos crimes mais registrados:


  1. Ameaça: 106.563

  2. Estelionato: 79.326

  3. Lesão Corporal: 44.090

  4. Outros crimes: 47.817

  5. Lesão Corporal Culposa na Direção de Veículo Automotor: 31.212


Uma forma geral de visualização é categorizar os crimes de acordo com a sua intencionalidade. Veja no gráfico abaixo as categorias e seus respectivos números absolutos, mas ressalto que para alguns crimes não dei tamanha importância e estes foram classificados como Outros crimes.


library(ggplot2)
dados_enquadramento %>% 
  dplyr::group_by(classificacao) %>% 
  dplyr::count() %>%
ggplot() +
 aes(x = classificacao, y = n) +
 geom_bar(stat = "summary", fun = "sum", 
 fill = "#1513B9") +
 labs(x = "Crimes", y = "Número absoluto") +
 coord_flip() +
 theme_gray() +
 theme(axis.text.y = element_text(face = "bold"))

Elaborado pela autora.
Elaborado pela autora.

Entre todos os crimes categorizados, o Crime contra a mulher soma 20831 denúncias. Os enquadramentos que foram designados a esta classificação são:


  1. Violência Psicológica contra mulher Artigo 147B;

  2. Descumprimento de medida protetiva de urgência;

  3. Feminicídio Artigo 121 PAR 2 VI;

  4. Importunação sexual;

  5. Estupro;

  6. Violação sexual mediante fraude.


Os Crimes de Discriminação somam 3287 denúncias. Os enquadramentos que foram designados a esta classificação são:


  1. Homofobia transfobia;

  2. Preconceito raça cor;

  3. Preconceito de raça e cor;

  4. Preconceito deficiência;

  5. Preconceito etnia procedência nacional;

  6. Preconceito religião;

  7. Injuria discriminatória;

  8. Injuria qualificada raça cor etnia religião ou origem;

  9. Apologia ao nazismo.


Se você prestou atenção, provavelmente a pergunta que lhe vem a cabeça agora é:


Tá, mas você fez o recorte de gênero? Ou de quantidade vítimas?

Nesse primeiro momento não o fiz, pois a intenção foi trazer a tona os crimes mais praticados pelos gaúchos e também mostrar que crime vai além do homicídio.


É possível observar (também) no gráfico acima que a categoria com maior número absoluto de registros, a ameaça, não está formalmente enquadrada nas tipificações específicas de violência de gênero, mas sim classificada como Crime contra a Pessoa. No entanto, ao incorporarmos o recorte de gênero na análise, torna-se evidente que tais ocorrências também compõem o fenômeno da violência de gênero quando a vítima é mulher. Ou seja, a categorização jurídica não esgota a dimensão social da violência, ela apenas a organiza sob determinada lógica normativa.


Fer, e quando o gênero entra nesse contexto?

Quando o assunto é gênero, a base de 2024 é composta por 43.12% de pessoas do gênero Feminino e 56.88% do gênero Masculino. Abaixo trago, novamente, o gráfico dos crimes categorizados filtrando somente o gênero Feminino. Nota-se que em algumas categorias o número absoluto decai drasticamente enquanto outras não se alteram tanto.


Elaborado pela autora.
Elaborado pela autora.

Como estamos falando do gênero F-E-M-I-N-I-N-O, a categoria Crimes contra a Pessoa já diz muito sobre o cenário do Estado do Rio Grande do Sul. Os crimes contabilizados nessa categoria são:


  1. Ameaça;

  2. Lesão corporal: leve; grave; gravíssima; seguida de morte; culposa; culposa direção veículo automotor;

  3. Vias de fato;

  4. Homicídio: doloso; culposo; culposo direção veículo automotor; decorrente de oposição a intervenção policial;

  5. Sequestro e cárcere privado;

  6. Sequestro Relâmpago;

  7. Perseguição;

  8. Maus tratos;

  9. Violação: domicilio; sepultura;

  10. Vilipendio a cadáver;

  11. Rixa;

  12. Perigo a vida/saúde de outrem;

  13. Incêndio: doloso; culposo;

  14. Infanticídio;

  15. Induzimento instigado auxílio ao suicídio ou a automutilação.


Fê, mas tem crime aí bem nada a ver, né?

Eu também acho, mas vamos voltar à base de dados e verificar a porcentagem (não multipliquei por 100) dos crimes de interesse de acordo com gênero. E não se esqueça, as categorias dos Crimes contra a pessoa ainda não foram recategorizados como deveriam.


classificação

Feminino

Masculino

Crimes contra a dignidade sexual

0.9109312

0.08906883

Crimes contra a honra

0.6233223

0.37667770

Crimes contra a mulher

0.9666194

0.03338064

Crimes contra a pessoa

0.5575598

0.44244022

Crimes contra crianças e adolescentes

0.7245690

0.27543098

Crimes contra grupos vulneráveis

0.6116058

0.38839423

Crimes de discriminação

0.5283630

0.47163695


A partir desse quadro, nós já temos algumas respostas e questionamentos comparativos entre os gêneros, mas eu também quero te deixar B-E-M ligade nas mentiras.


Como assim mentira, Fê?

Sim! Nas mentiras e dizem por aí que são três tipos.


Três tipos de mentira?

Sim e vou te explicar. A ideia de que existem tipos de mentiras é comum, sendo a frase mais famosa a atribuída a Benjamin Disraeli: "Existem mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas", que classifica as mentiras pelo seu grau de malícia e uso, enquanto outras abordagens categorizam por intenção (jocosa, oficiosa, perniciosa), por comportamento (branca, compulsiva, patológica) ou por finalidade (social, autoengano, criminosa). Se eu quisesse mentir aqui a porcentagem de cada um dos crimes ou talvez omitir as minhas categorizações, provavelmente distorcer os dados seria algo bem tranquilo. Por isso, é importante questionar jornais, materiais online, revistas, redes sociais e demais meios de comunicação.


Tudo o que veicula informações online, impressa ou televisiva deve ser questionado.

Voltando aos tipos de enquadramentos da categoria de Crimes contra a Pessoa, a ideia é recategorizar, dar uma atenção individual a cada uma delas e trazer a tona a subjetividade de gênero e raça. Daqui pra frente os dados serão utilizados nessa perspectiva e com a recategorização devida.


E você pode estar se perguntando,


Fer, mas estamos falando de feminicídio ou violência de gênero?

Essa é uma grande questão.


Nas categorizações do Estado e em Lei, como a Lei Maria da Penha, o feminicídio é categorizado como consumado e tentado, mas quando se chega a este nível de agressão, ou a mulher já faleceu ou está no caminho de ser violentada, certo? O meu intuito aqui é tratar a violência de gênero A-N-T-E-S de chegar a vias de fato, então neste post estou trabalhando com Violência de Gênero e, ao mesmo tempo, racializando esses números.


A partir de agora quero trazer a perspectiva do crime contra a mulher e, para isso, segue a recategorização dos crimes contra a pessoa que irei considerar. Todas as formas de Lesão Corporal foram agrupadas.


crimes_mulher <- c("VIOLENCIA PSICOLOGICA CONTRA MULHER ART 147B",  "DESCUMPRIMENTO DE MEDIDA PROTETIVA DE URGENCIA",  "FEMINICIDIO ART 121 PAR 2 VI",  "IMPORTUNACAO SEXUAL",  "ESTUPRO",  "DIFAMACAO",  "VIOLACAO SEXUAL MEDIANTE FRAUDE",  "ASSEDIO SEXUAL",  "AMEACA",  "LESAO CORPORAL",  "LESAO CORPORAL LEVE",  "LESAO CORPORAL GRAVE",  "LESAO CORPORAL GRAVISSIMA",  "LESAO CORPORAL SEGUIDA DE MORTE",  "LESAO CORPORAL CULPOSA",  "LESAO CORPORAL CULPOSA DIRECAO VEIC AUTOMOTOR",  "VIAS DE FATO",  "HOMICIDIO DOLOSO",  "HOMICIDIO CULPOSO",  "HOMICIDIO CULPOSO DIRECAO VEIC AUTOMOTOR",  "SEQUESTRO E CARCERE PRIVADO",  "SEQUESTRO RELAMPAGO",  "PERSEGUICAO",  "MAUS TRATOS",  "VIOLACAO DE DOMICILIO",  "INCENDIO DOLOSO",  "INCENDIO CULPOSO",  "INDUZIMENTO INSTIGAO AUXILIO AO SUICIDIO OU A AUTOMULTILAO",  "INJURIA",  "INJURIA DISCRIMINATORIA",  "INJURIA QUALIFICADA RACA COR ETNIA RELIGIAO OU ORIGEM",  "PRECONCEITO RACA COR",  "INTIMIDACAO CYBERBULLYING",  "CONSTRANGIMENTO")

Veja a tabela abaixo.


Enquadramento

Quantitativo

Percentual (%)

Ameaça

59.924

42,14%

Lesão corporal

24.909

17,52%

Vias de fato

14.651

10,30%

Injúria

12.025

8,46%

Descumprimento de medida protetiva

9.947

6,99%

Perseguição

6.701

4,71%

Violência psicológica (Art. 147-B)

5.151

3,62%

Difamação

4.540

3,19%

Violação de domicílio

1.734

1,22%

Maus-tratos

1.307

0,92%

Estupro

1.029

0,72%

Preconceito de raça/cor

289

0,20%


Como pode visto, o crime de Ameaça representa 42% das ocorrências feitas por mulheres. A violência é majoritariamente de controle e intimidação. Se somarmos ameaça + lesão corporal + vias de fato, temos: 69,96% das ocorrências, ou seja, quase 70% envolvem violência direta ou iminente. O descumprimento de medida protetiva (6,99%) indica reincidência e fragilidade na ruptura do ciclo. A violência psicológica (3,62%) aparece formalmente tipificada, mas sabemos que é estruturalmente subnotificada.


Para uma melhor visualização, abaixo está o mapa do Estado do Rio Grande do Sul trazendo por meio da intensidade da cor rosa o número absoluto de todos estes crimes por município, pois assim podemos observar as regiões mais violentas no ano de 2024.


Elaborado pela autora.
Elaborado pela autora.

Mas porque há tantos casos de lesão corporal E ameaça? Tem explicação?

Esse é um questionamento mais do que legítimo. Mas quem nunca ouviu falar daquela mãe, tia, prima ou irmã que não tem renda própria ou até tem renda própria e, por isso, não consegue romper com a violência? Sem autonomia financeira, abrir um Boletim de Ocorrência (BO) pode significar não ter para onde ir depois. Separar-se pode significar perder a casa. Denunciar pode significar não ter como sustentar os filhos.


Essa não é uma história e repetição distante. É uma rotina que atravessa famílias, bairros, cidades e Estados. Talvez você já tenha ouvido. Talvez alguém próximo tenha vivido. Talvez esteja acontecendo agora. Essa não é exceção. É estrutura.


Como assim estrutura? Estamos falando de violência de gênero ou de construção civil?

Calma! Para tudo tem o seu parágrafo e, nesse caso, a estrutura a qual aponto você verá exemplos e contextualização a partir de agora.


Para ilustrar o cenário da mulher no contexto de pessoa responsável pelo domicílio ou cônjuge ou companheira do mesmo sexo no Estado do Rio Grande do Sul, vamos utilizar dados do 4° trimestre do ano de 2025 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua).


Se você não sabe como baixar esses dados, sugiro que primeiro você leia esse post aqui. 

Confesso que a PNAD Contínua não é uma base fácil de manusear e entender as relações que ela possui, mas uma coisa eu te digo: Não se esqueça que essa base possui um designer amostral robusto e você, de forma alguma, pode ignorar isso.


Como as tabelas que mostrarei ao longo desse post são feitas também no R, acho válido você começar a utilizar o pacote janitor a partir de agora para uma melhor construção das suas tabelas e visualização de proporções de uma forma fácil e intuitiva.


Já instalou o pacote?

Não esquece de carregá-lo.

install.packages("janitor")
library(janitor)

Vamos lá então...


No Rio Grande do Sul, as mulheres representam cerca de 51,4% da população, totalizando mais de 23 milhões de pessoas, aproximadamente 1,28 milhão a mais que os homens. A razão de sexo indica que há cerca de 94 homens para cada 100 mulheres no estado.


E claro, esses números não são apenas demográficos.

Esse números revelam que qualquer debate sobre trabalho, renda e violência de gênero não trata de uma minoria, mas da maioria da população. Quando falamos de desigualdade econômica ou de políticas de cuidado, estamos falando de um tema estrutural que impacta mais da metade da sociedade gaúcha.


Mas, apesar de sermos maioria e da prerrogativa de haver cerca de mais de 579 mil mulheres a mais do que homens como responsáveis pelo domicílio (9.256.871 − 8.677.297 equivale a aproximadamente 579.574), essa responsabilidade não vem acompanhada, necessariamente, de maior renda ou proteção social. Muitas dessas mulheres acumulam o trabalho remunerado com o trabalho de cuidado não pago, enfrentando jornadas duplas ou triplas. Ou seja, elas sustentam o domicílio, mas continuam inseridas em um mercado de trabalho marcado por desigualdade e precarização.


Isso não é uma questão individual e, digo novamente, é uma questão estrutural.

E falando de estrutura, é importante dar atenção a estrutura familiar existente no Rio Grande do Sul. As configurações familiares são diversas e as uniões entre mulheres são numericamente mais frequentes que as entre homens. Mesmo em relações entre duas mulheres, estudos mostram que o trabalho doméstico e de cuidado continua existindo, visto que a divisão do cuidado ainda é atravessada pelo mercado de trabalho e políticas públicas e, ainda assim, pode haver desigualdades internas de renda. Veja o quantitativo absoluto do número de pessoas a qual a condição no domicílio é retratada por uma união entre pessoas do mesmo sexo abaixo.


Condição no domicílio

Mulher

Homem

Cônjuge ou companheiro(a) do mesmo sexo

60294.4750

33414.4260


Aí vem um questionamento:

A desigualdade desaparece quando o homem sai da equação?

Trata-se de uma questão complexa, que será aprofundada ao longo deste post. Contudo, é importante reconhecer que a análise ainda carece de um recorte racial, indispensável para compreender as desigualdades que estruturam esse fenômeno. Veja que entre pessoas pretas e pardas, as mulheres são maioria como responsáveis pelo domicílio.


Cor/Raça

Mulher - Pessoa responsável pelo domicílio

Homem - Pessoa responsável pelo domicílio

Branca

7165970.48003

6765369.34209

Preta

655142.82881

532519.84347

Amarela

8451.18994

11520.06501

Parda

1406652.54664

1342773.18330

Indígena

19359.72807

24989.55883

Ignorado

1294.28381

125.14671


Agora, sim, avançamos para a dimensão econômica da violência de gênero. Afinal, quando falamos de violência de gênero, não estamos tratando apenas de identidades, mas de relações estruturais de poder que produzem dependência econômica, vulnerabilidade e desigualdade.


 É sobre gênero + raça + estrutura econômica.

E a pergunta que não quer calar:


Se elas sustentam a casa, por que ainda não conseguem sair da violência?

Os dados mostram que mulheres são maioria entre as pessoas responsáveis pelo domicílio, especialmente entre pretas e pardas. No entanto, essa responsabilidade não elimina a vulnerabilidade. Ao contrário, pode intensificá-la. A sobrecarga econômica, a desigualdade salarial e a ausência de políticas públicas de cuidado criam barreiras concretas para que mulheres rompam ciclos de violência. E é nesse ponto que trabalho, Estado e violência de gênero se encontram.


A potência da PNAD Contínua está justamente na possibilidade de ampliar essa análise, conectando a violência de gênero a fatores estruturais como educação, renda e intensidade da inserção no mercado de trabalho.


A maioria absoluta (homens e mulheres, todas as raças) das pessoas ocupadas no Rio Grande do Sul possuem apenas um trabalho, mas quando relacionamos a necessidade de um segundo trabalho que indica estratégias de complementação de renda,  mulheres pretas apresentam proporção ligeiramente superior à dos homens pretos, o que pode indicar estratégias adicionais de complementação de renda em contextos de maior vulnerabilidade econômica. A continha feita para chegar a essa conclusão é uma simples proporção conforme indicado abaixo.



No caso acima, estou falando somente de pessoas autodeclaradas pretas, porém podemos somar pessoas pardas e pretas, e assim teremos mais um indicativo potente.


Cor ou raça

Mulher

Um

Dois

Três ou mais

Branca

7975439.0407

365072.6717

26158.9340

Preta + Parda

693310.5540 + 1414854.0677

29522.4711 + 54636.0126

470.0324 + 2468.7194

Cor ou raça

Homem

Um

Dois

Três ou mais

Branca

9493359.9303

430232.7959

26908.9922

Preta + Parda

780189.0599 + 1987385.2857

27514.2853 + 75518.9299

1369.5380 + 4409.4294


Veja abaixo as proporções.


Grupo

% com dois trabalhos

Homem branco

4,3%

Mulher branca

4,4%

Homem preto+pardo

3,6%

Mulher preta+parda

3,8%


Fer, o que isso mostra?

Mostra que a proporção de dois trabalhos é maior entre os brancos do que entre pretos e pardos e que dentro de cada grupo racial, mulheres têm proporção ligeiramente maior que homens. Mas, A-T-E-N-T-E-S-S-E, a diferença por raça é maior que a diferença por gênero. Isso é interessante porque quebra uma expectativa comum:


  1. A pluriatividade não é maior entre população negra.

  2. O que diferencia mais fortemente a população negra é renda média e qualidade do vínculo, não necessariamente o número de trabalhos.


ou seja,


a diferença estrutural parece estar mais associada à qualidade da ocupação e ao rendimento do que à quantidade de trabalhos exercidos.

Essa hipótese é I-N-C-R-Í-V-E-L. Acredito que o senso comum nos leva (coletivamente também) a erros diários de pensamentos e, talvez, de estilo de vida. E, seguindo essa ideia, chegou o momento de trazer fatores ligados a educação, visto que o vínculo empregatício está atrelado ao nível de curso (Regular do ensino fundamental, Regular ensino médio, Superior, Especialização, Mestrado e Doutorado) frequentado.


Partindo do princípio que dados os dados que abordam as características de trabalho são fornecidas para pessoas de 14 anos ou mais de idade, irei filtrar a base de dados referente a educação a esta idade também.


Os dados de educação da PNAD Contínua são básicos, mas trazem informações ricas. Uma delas é essencial ao cotidiano, saber ler e escrever.


Fer, mas é o básico, né?

A questão é: básico para quem? Veja a tabela abaixo.


Mulher

Sabe ler e escrever?

Cor ou raça

Sim

Não

Branca

16549083.4265

558337.0225

Preta

1370939.7256

57492.0330

Parda

3051850.6571

187115.0610

Homem

Sabe ler e escrever?

Cor ou raça

Sim

Não

Branca

15367517.7383

551780.2827

Preta

1222322.0013

47968.4018

Parda

3122446.7673

175630.7875


Para interpretação, pessoas pretas e pardas serão consideradas na mesma categoria, certo?  A desigualdade racial é evidente quando o assunto é taxa de analfabetismo. As taxas são superiores às de pessoas brancas ( aproximadamente 3%). Enquanto a mulher branca alcança o marco de 3,30%, as mulheres pretas e pardas chegam a 5,24% (Diferença de quase 2 pontos percentuais). Já homens brancos chegam a 3,50% e homens pretos e pardos 4,89%, evidenciando que a desigualdade racial é mais forte que a desigualdade de sexo. Antes mesmo de falarmos em mercado de trabalho ou violência de gênero, estamos falando de uma estrutura que distribui desigualmente o acesso à educação básica. E lá vem mais uma pergunta,


Como romper a violência se o acesso básico ao direito à educação não foi garantido?

A tabela abaixo mostra que os homens se concentram mais nos níveis de escolaridade fundamental como etapa máxima concluída, enquanto as mulheres predominam no ensino superior, especialmente na graduação e na especialização. Isso desmonta a narrativa de que a desigualdade econômica decorre de menor qualificação feminina.


Ainda assim, mesmo com maior escolaridade média, as mulheres continuam enfrentando desigualdade salarial e maior vulnerabilidade econômica. 

Isso revela que a violência de gênero não se explica por falta de estudo, mas por uma estrutura de mercado que desvaloriza o trabalho feminino e transfere às mulheres o custo do cuidado.


Nível de Ensino

Homens Brancos

Homens Negros

% Negro vs Branco

Mulheres Brancas

Mulheres Negras

% Negra vs Branca

Fundamental (Regular)

2.810.380

1.087.584

38,70%

2.365.693

971.477

41,00%

Médio (Regular)

4.095.013

1.326.774

32,40%

3.913.386

1.272.573

32,50%

Graduação

2.171.163

319.365

14,70%

2.542.073

384.293

15,10%

Especialização

606.008

73.319

12,10%

1.159.170

115.611

10,00%

Mestrado

99.332

14.574

14,60%

140.517

10.584

7,50%

Doutorado

80.910

7.012

8,70%

72.598

5.620

7,70%


É necessário S-E-M-P-R-E ressaltar,


A diferença é racial antes de ser de gênero.

Quando analisamos os dados educacionais sob a lente da interseccionalidade, percebemos que a desigualdade não opera de forma isolada. Raça e gênero não atuam como fatores independentes, mas como estruturas que se cruzam e reorganizam as oportunidades sociais ao longo da vida.


Através da tabela acima, é possível observar que á medida que o nível educacional se eleva, a presença proporcional da população negra (pretos + pardos) diminui e essa redução é ainda mais intensa entre mulheres negras. Esse funil educacional se converte diretamente em desigualdade de renda: menos anos de estudo significam inserções mais precárias no mercado de trabalho, maiores taxas de informalidade, múltiplos vínculos para complementar renda e menor proteção social. Assim, quando raça e gênero se cruzam, se torna uma consequência a diferença em acesso à educação, a qualidade da ocupação, o nível salarial e, consequentemente, a autonomia econômica. E sabemos bem:


Sem autonomia econômica, a capacidade de romper ciclos de violência também se torna mais difícil.

Ou seja, menor escolaridade média implica:


  • menor renda potencial

  • maior dependência econômica

  • menor capital social

  • menor acesso a redes institucionais

  • menor poder de barganha em relações abusivas



Agora chegou um momento crucial desse post,


Vamos falar de rendimento?

Aqui nós temos a questão do número de trabalhos de cada pessoa (um, dois, três ou mais), como foi demostrado um pouco mais acima desse post, mas essa informação também é importante e apresento a você na tabela abaixo. Ressalto que a população dessa tabela, assim como as outras, são para pessoas maiores de 14 anos e pessoas ocupadas. No caso de três ou mais trabalhos, o cv é muito alto e qualquer interpretação desses dados seria equivocada e, por isso, analisei somente um e dois trabalhos.


É nítido que há uma hierarquização salarial e, claro, uma estrutura que estou discutindo desde sempre. O homem branco segue no topo, enquanto as mulheres negras fincam o pé no último lugar do ranking. Embora o segundo vínculo de trabalho aumente a renda média de todos os grupos, ele não elimina as distâncias salariais entre brancos e negros. A interseção entre raça e gênero mantém o homem branco no topo da hierarquia de rendimentos e a mulher negra na base, evidenciando que a remuneração não responde apenas à quantidade de trabalho, mas à posição social ocupada na estrutura racial e de gênero.



1 - Trabalho

2 - Trabalhos

Sexo - Homem

Renda Média

Cor/Raça

Branco

R$ 455

R$ 571

Negro

R$ 297

R$ 417

Sexo - Mulher

Renda Média

Cor/Raça

 Branca

R$ 340

R$ 422

 Negra

R$ 228

R$ 328


E você deveria (ao menos) estar se perguntando,


Se pessoas negras trabalham tanto quanto pessoas brancas, como pode ter essa diferença G-R-I-T-A-N-T-E?

É muito importante a gente tem em mente que há variáveis na PNAD Contínua que contabilizam as horas habituais e efetivas de trabalho. As horas habituais são aquelas que são cadastradas de uma formal legal. O que é isso, Fer? Por exemplo, eu trabalho 40 horas semanais, mas tem pessoas que trabalham 44 horas semanais e outras que saem totalmente dessa lógica, como os 12 por 36 horas. Eu, particularmente, gosto de trabalhar com essa forma de horas trabalhadas, tá? Então a seguir trago uma tabela das horas habituais por raça e gênero.



1 - Trabalho

2 - Trabalhos

Sexo - Homem

Horas Habituais Média

Cor/Raça

 Branco

4,23

3,76

 Negro

4,21

4,02

Sexo - Mulher

Horas Habituais Média

Cor/Raça

 Branca

3,81

3,23

 Negra

3,77

3,53


Tá chocade?

Essa tabela singela demonstra uma diferença significante e traz a tona muitos problemas sociais e do Estado. Uma das questões que é super válido ressaltar nesse contexto é que a desigualdade salarial não pode ser explicada pela quantidade de tempo trabalhado. Então não vai sair por aí caindo no conto do senso comum, tá?


No caso de um único vínculo, homens e mulheres negras trabalham praticamente o mesmo número de horas que seus equivalentes brancos. Quando acumulam dois empregos, a situação se torna ainda mais expressiva: homens negros e mulheres negras passam a trabalhar mais horas médias do que brancos e, ainda assim, recebem menos.


A diferença não está no tempo de trabalho, mas na forma como o trabalho é valorizado socialmente.

A interseccionalidade evidencia que o mercado de trabalho, onde, em sua maioria, são chefiados por pessoas brancas, remunera de maneira distinta corpos racializados e generificados. E aqui quero trazer o seguinte pensamento crítico:


Mulheres negras, mesmo trabalhando mais horas quando acumulam vínculos, permanecem na base da hierarquia salarial, revelando que o problema não é produtividade, mas estrutura.

E, como já falamos de educação, a população negra, historicamente submetida a desigualdades educacionais, concentra-se proporcionalmente nos níveis mais baixos de instrução. Contudo, mesmo quando há equiparação educacional, o retorno salarial não se distribui de maneira simétrica. O diploma não neutraliza o peso da raça e do gênero. A taxa de retorno da educação é diferencial: homens brancos convertem escolaridade em renda com maior intensidade, enquanto mulheres negras experimentam os menores retornos relativos.


E é nesse ponto que a dimensão econômica se conecta diretamente à violência de gênero.

 A menor remuneração, mesmo diante de igual ou maior carga horária, compromete a autonomia financeira. A autonomia financeira é um elemento central na capacidade de ruptura com relações abusivas. Assim, a desigualdade salarial não é apenas um fenômeno distributivo, ela constitui um mecanismo que pode prolongar ciclos de violência ao restringir alternativas materiais.


E o que o Estado pode e deve fazer?

É aí que entram as políticas públicas.


Quais políticas públicas?

De renda, acesso a educação, acolhimento, racial e territorial. Como vimos, a violência de gênero é a soma de um T-A-N-T-O de coisa e não tem como enfrentar este mal sem antes mitigar diferenças explicadas e exemplificadas nesse post. E claro, sem a redução das assimetrias estruturais de renda e trabalho, as intervenções permanecerão predominantemente reativas, com eficácia limitada na interrupção do ciclo de violência.


E se você realmente leu com atenção e entendeu o meu ponto de vista com dados, percebeu que ainda falta uma análise crítica em relação a mulheres que são trabalhadoras do lar.


Percebeu isso?

O próximo post será abordando tudo o que vimos aqui, mas com o recortes daquelas mulheres que trabalham, mas não possuem renda.


Espero que eu tenha plantado uma beirinha de curiosidade aí e que você futrique também os dados do seu Estado e, de alguma forma, que você torne isso público para que possamos refletir sobre a diferença de mitigação entre os Estados.


Todos os códigos se encontram no meu github.


A gente se encontra logo mais.

Bons estudos!


Fernanda Kelly | Estatística

 
 
 

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Em um mundo onde tudo pode ser monitorado e medido, os dados são apenas a matéria-prima do conhecimento.

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Fernanda Kelly R. Silva.
 

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