• Fernanda Kelly

Sermos múltiplos

Em uma entrevista de emprego nós ouvimos, quase sempre, as mesmas perguntas. Quem é você? O que você faz? Ou gosta de fazer? Qual a sua especialidade? Ou projetos?

Bem, vou contar um breve história da artista, comunicadora, especialista em marketing, empreendedora e fundadora de iniciativas sensacionais, Rafaela Cappai.

Rafaela, como de praxe, em uma de suas entrevistas foi questionada sobre quem ela era e, por incrível que pareça, desta vez ela não se limitou a dizer o que quase todos que participavam da dinâmica de grupo já haviam falado em mesma sintonia. Por sua vez, ela iniciou seu discurso descrevendo os vários papéis que ela desenvolvia em sua vida.

"Sou atriz, produtora artística, jornalista e bailarina, mas também sou escritora, professora de dança e empreendedora."

O que Rafaela não esperava era uma colega que, assim como ela, participava da dinâmica a questionasse logo em seguida.

"Menina! Que loucura! Você tem que escolher. Ninguém consegue fazer tanta coisa tão bem assim. Ninguém vai acreditar em você."

E por qual razão as pessoas não acreditariam nela? Acredito que a maioria dos meus leitores já passaram por isso, mas o papel que eles desenvolveram na dinâmica de grupo, por exemplo, foi dizer o que exatamente a maioria dos participantes diziam em mesma sintonia. O igual. O nada inovador ou criativo. O nada investigador.

Eu sou estatística de formação, e a nossa grade curricular abrange diversos tipos de análises de dados e, claro, me interesso por todos. Me lembro que Análise de Séries Temporais foi uma das que mais me chamou atenção e, por isso, meu TCC e projeto de mestrado foram desenvolvidos através desse método. Mas, eu participava de diferentes projetos de pesquisa. Um era na área da saúde, outro em geoprocessamento, dois na área da administração e por aí vai. E, assim como a Rafaela Cappai, também fui questionada por desenvolver habilidades em tantas áreas distintas.

Em alguns momentos dizer o que eu fazia, precisamente, era um pouco desconcertante, mas eu sempre dizia que era uma estatística em formação. Alguns diziam que eu era "doida" e, a próxima fala, era sempre "você devia focar somente em uma coisa". Porém, levando-se em conta a vidas das pessoas que escolheram somente um caminho a se seguir, trilharam o caminho natural da vida.

Nascer, crescer, escolher e morrer.

Pra nós, seres múltiplos, percorrer este caminho natural não é tão natural assim. O que faz sentido para pessoas assim como eu e Rafaela é:

Nascer, crescer, experimentar, escolher, escolher de novo, voltar duas casas, experimentar, escolher e reescolher quantas vezes for necessário.

Pois, se eu me sinto um canivete suiço porquê devo me apresentar como uma tesoura sem ponta? Tesouras sem ponta só cortam papel. E para pessoas que são múltiplas e possuem diversas habilidades, ser uma tesoura sem ponta não tem o menor sentido. É como cortar asas de uma águia.

Ainda assim, em escolas e universidades, crescemos acreditando que devemos focar. Focar em uma linguagem de programação, focar em economia criativa ou em séries temporais, tudo depende da sua área, mas a palavra de ordem é a mesma. Seja uma tesoura!

Ser múltiplo dá trabalho e é preciso ter foco assim como quem não é, pois sem foco não há construção de nada. Mas foco não significa ignorar suas diversas habilidades e se conter em uma cadeira desestimulante. Foco é encontrar sua motivação, mesmo que sejam muitas, e juntar todas elas e desenvolver/entregar valor ao mundo.

Em vez de escolher uma profissão, casar com ela e ficar até o último dia de sua vida ao lado dela, seja um canivete suiço. Experimente ser palestrante, professor ou palhaço. Desenvolva suas habilidades. Cresça com elas. Seja você e não somente mais um na dinâmica de grupo.

Dica:

Assista Seja Um Canivete Suíço | Rafaela Cappai | TEDxBlumenauSalon


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